terça-feira, 18 de maio de 2010

Autossabotagem

Lia era uma menina tímida e nada comum. Não por fora, mas por dentro. Sua aparência, sim, era normal. Estatura média. Cabelos rebeldes e olhos curiosos, tudo com uma cor de chocolate ao leite derretido. Nem gorda, nem magra. Normal. Mas sua personalidade... Era bem difícil encontrar alguém que a pudesse entender.

Talvez nem fosse por falta de tentativa. Tinha algo em Lia que realmente aproximava as pessoas. Mas ela não se mostrava facilmente. Como eu disse, ela era tímida. Muito tímida. E, por conta disso, disfarçava essa timidez com sorrisos e atrevimentos - estes últimos, nem sempre bem recebidos. Assim era mais fácil. Como uma capa protetora, evitando que qualquer um entrasse e fizesse o que bem entendesse.

Quem visse Lia, deparava-se com uma garota alegre, segura e autosuficiente. Sempre disposta. Raramente intimidada. Ninguém podia realmente enxergar seus momentos de tristeza e insegurança. Ninguém sabia o quanto se apoiava e encontrava força em seus amigos. Muitos sentiam-se intimidados por ela. Poucos conheciam suas fraquezas.

Não que tudo fosse uma farsa. Lia possuía um pouco de cada dentro de si. Força e fraqueza. Timidez e segurança. Medo e coragem. Era apenas uma questão de escolha do que mostrar. E ela só mostrava as partes que lhe convinham. Raros eram aqueles que conheciam Lia como um todo. E ela adorava fingir que nem esses podiam ver o que escondia.

Mas algo estava errado, e ela podia sentir isso. Por mais que tivesse... medo, Lia queria que a conhecessem. Queria alguém que a entendesse, e gostasse do que visse. Ansiava por alguém com quem dividir o seu todo. Sem restrições. E estava cansada de ver o quanto as suas próprias barreiras anulavam qualquer chance disso acontecer.

Lia queria alguém.

Mas Lia não sabia como manter esse alguém por perto...

* * * * *

PS: Foi difícil usar esse título. Ainda não me acostumei com esse novo acordo ortográfico. :S

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Os tempos são outros, meu bem.

- Tu és tão legal, que tu viras amiga.

Ouvi isso de uma amiga, uma vez, e fiquei pensando: "como assim?”. Namoradas/gatinhas não são legais? Elas são só menininhas bonitas e femininas, feitas sob medida para que o macho alfa seja o responsável por sua proteção e cuidado? São incapazes de formular frases inteligentes e engraçadas ou rir com o namorado/gatinho por um bom tempo? Caramba, isso é tão século passado!

A meu ver, um gatinho só é gatinho de verdade se me fizer rir. Claro que eu não to procurando um palhacinho de circo pra manter um relacionamento, mas também não tenho tendências "robófilas". Ora, quem quer namorar um cara que não saiba sequer contar uma piada de pontinho? - Tá, piadas de pontinhos são terríveis, mas deu pra entender o meu ponto, não?

Eu não sei o que as pessoas procuram, mas eu não quero alguém que seja simplesmente bonito e másculo. Não sou o tipo clássico de mulher, logo não procuro homem pra fazer o velho "papel de homem", que me proteja das mazelas da sociedade, defenda a minha honra, me banque e me faça pegar cerveja e servir salgadinho pros amigos dele. Foi-se o tempo que isso era ser homem.

Mulher, hoje em dia, se vira muito bem, obrigada, e muito do que a gente espera do sexo oposto é mais pra que eles não se sintam tão desnecessários. Até porque, convenhamos que desnecessários eles não são. É lógico que continuam sendo importantes, mas de outra forma.

Eu não preciso que ele seja de aço, forte e musculoso como o Superman, e sim inteligente. Preciso que a gente venha a somar na vida um do outro. Que ele fale e escreva direito, e seja minimamente educado. Ora, eu sei que as pessoas arrotam, mas precisa executar a Sinfonia nº 27 de Bach no meio do jantar de aniversário do meu irmão? A temporada dos ogros já se foi, há tempos! Sejamos civilizados, sim?

Também não to pedindo um cara que abra a porta do carro pra mim. Isso é muito fácil! O último gatinho que fez isso me largou sem dó nem piedade, simplesmente porque eu não quis dar pra ele (tentem não se ofender com o termo). Então, ao invés de me aparecer vestindo a roupinha de cavalheiro de 1820, tente valer a pena, ok? Isso não é pedir muito.

Agora, sejamos sinceros: "dinheiro é bom, e todo mundo gosta". Mas não, não é necessário que ele seja herdeiro do Eike Batista, e me sustente pro resto da vida. Eu pretendo construir minha bem sucedida carreira profissional e ter meu próprio dinheiro. Mas, também, ele não pode ser um vagabundo esperando ser sustentado. Não sou mãe de ninguém, e meu filho que não se iluda, porque nem ele vai ficar eternamente nas minhas costas. Independência financeira é uma benção, portanto, devidamente abençoado seja.

Por fim, é extremamente importante que os homens entendam: gatinha/namorada/mulher não é serviçal de ninguém. Eu não tenho a menor obrigação de ficar responsável pelo bom atendimento dos seus amigos, quando o meu gatinho/namorado/marido resolve recebê-los para uma maravilhosa partida de futebol. Não to dizendo que sou imprestável ou incapaz de fazer um favor, vez ou outra, mas não me faça de escrava! Eu ajudo, contanto que todo mundo colabore. Portanto, homens, façam o favor de levantar essa buzanfa do sofá e fazer alguma coisa útil, certo?

Então? Deu pra entender? As coisas mudaram, meus queridos. Não pensem que teremos uma vida parecida com as dos nossos avós. Felizmente, pelo menos nessa questão, o mundo mudou pra melhor. Não espero que a mentalidade masculina, no geral, tenha evoluido da mesma forma, mas eu sei que tem aqueles que se salvam. E ainda vou topar com um deles por aí...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Contando com o Tempo

Sentada em uma das cadeiras de plástico da churrasqueira do seu prédio, Lia esperava Daniel. Diferente de todas as vezes que fizera isso, a angústia e tristeza que anteviam aquele encontro a dominavam. Ela engolia em seco, tentando fazer com que aquele nó da garganta descesse goela abaixo de uma vez por todas. E quando Daniel surgiu pela entrada da área da piscina, inquieta, Lia tentou controlar as emoções, disfarçar a dor que sentia e esconder o amor que relutava em se esvair.
Sem dizer qualquer palavra, Daniel aproximou-se, puxou uma cadeira, colocando-se de frente para ela, deu um beijo em sua testa e sentou-se, igualmente tenso. Parecia pronto para falar, mas olhava Lia como quem não ousasse fazê-lo sem sua permissão. Ela, por sua vez, ainda não sabia se estava preparada para ouvir o que ele tinha a dizer. A única certeza que tinha era o desejo de que tudo acabasse logo, e ela pudesse retornar à confortável solidão do seu quarto.
Ele puxou o ar como quem vai começar um difícil discurso, mas Lia o interrompeu.
- Tu preferes falar primeiro? Ou queres que, antes, eu diga o que to sentindo?
- Acho que tu deves falar primeiro...
- Certo... Eu vou tentar ser direta, e te peço pra esperar que eu termine. Eu prometo ouvir tudo o que tu tens pra dizer, mas, por favor, me ouve até o fim, tá?
Ele aquiesceu.
- Eu queria que tu entendesses que eu sei que a gente não tava namorando, mas isso não me impediu de me sentir traída. A ausência de um rótulo de namorada não diminuiu a dor que eu senti, quando te vi ali. Não posso falar por ti, nem sei como tu te sentias ou o que pensavas em relação à gente, mas eu tava contigo. Única e exclusivamente contigo. Então, mesmo que inconscientemente, eu esperava o mesmo de ti, Daniel... Não quero que me entendas mal, eu não ficava por aí fantasiando a nossa relação, mas é natural que a gente espere do outro quase exatamente aquilo que a gente oferece. E por mais que não tenha sido de caso pensado, eu te ofereci um comprometimento sem tamanho, como nunca tinha sido capaz de oferecer. Por isso eu não consigo entender, sabe? É aí que tudo fica confuso, porque eu não vejo o que te levou a fazer isso. A mentir, me evitar e me trair um dia depois de tudo aquilo que foi dito. E eu nem consigo me decidir se eu quero mesmo saber o porquê disso tudo...
De cabeça baixa, Lia não conseguia mais organizar os pensamentos diante de tanta confusão sentimental. Não queria mais olhar praqueles doces olhos castanhos traidores. Mais que tudo, queria não lembrar mais nada.
- Lia... – ele esperou, ela não levantou a cabeça, mas também não interrompeu. – por favor, não fala no passado. Eu sei que errei, mas to aqui pra resolver isso. Não quero que esse seja o fim... Eu pensei que tu tivesses aceitado essa conversa como uma forma de colocar tudo pra trás, mas ta parecendo que esse “tudo” também significa a gente. Não faz isso. Me perdoa. Me dá mais uma chance. Eu quero ser teu namorado, com rótulo, compromisso, tudo. Tu não queres ser minha namorada?
- Queria...
- Não, não fala assim. Caramba, como eu pude ser tão imbecil? Nem eu sei o que me deu na cabeça. Acho que me apavorei. Foi tudo tão rápido... Eu não esperava conhecer alguém, muito menos me apaixonar desse jeito. Em um dia eu me vi completamente encantado por ti, e em uma semana eu já te queria perto de mim, participando da minha vida. Em um mês... Não foi um processo. Foi um atropelo. E, eu sei, a culpa não é tua. Nem sei se existe culpa pra uma paixão... um amor desse tipo! E isso me apavorou. Eu não sabia o que tava fazendo, mas fui um idiota por arriscar tanto por nada. Desculpa, Lia. Me perdoa. Eu fui um idiota, uma criança. Deixa eu te provar que sou mais que isso. Deixa eu tentar ser o cara que tu mereces.
Ao levantar os olhos pra ele, viu o reflexo de suas próprias lágrimas no rosto daquele que tanto amava. Por que tinha que ser assim? Ela podia ver a dor dele. Podia ler em cada traço de seu rosto toda a verdade daquelas palavras. Mas e a dor dela? E todas as lágrimas derramadas por culpa dele? Poderia ela esquecer? Perdoar? Confiar de novo?
Ela esticou a mão, enxugando as lágrimas dele. Passou os dedos pelos cabelos dele, parando na nuca. Aproximou-se devagar, tentando entender o que seus olhos diziam. A mão desceu o pescoço e subiu para a bochecha, repousando ali. E ele fechou os olhos, sentindo, esperando. E ela o beijou, bem de leve. Mas foi o suficiente. O medo tomou conta. A dor gritou. E Lia se afastou.
- Não dá... Eu não consigo. Não agora.

terça-feira, 9 de março de 2010

Reencontro

Ela estava no saguão do aeroporto, sentada em frente ao portão de desembarque. Estava só, e parecia concentrada, calma e serena. Não fossem os constantes olhares furtivos em direção ao painel de informações, qualquer um diria que ela estava simplesmente ali, sem nada ou ninguém por quem esperar.

Depois de um tempo daquela aparente tranquilidade, pareceu que o painel de informações finalmente dissera o que ela queria, e em poucos segundos ficar sentada já não era mais opção. Ficou em pé, preocupando-se em ter absoluta certeza de que tudo estava em seu devido lugar; a roupa, o cabelo, as próprias mãos, que, nervosas, não sabiam mais o que fazer.

Após um tempo, entre esticadas do pescoço e pontas de pé, na busca daquele por quem esperava, ela enfim revestiu-se da calma que antes transparecia, e sorriu. Um sorriso leve, aliviado. Então, percebendo que ele também procurava, mas ainda não a tinha visto, encaminhou-se para o portão, no intuito de ser encontrada.

Quando ele a viu, e abriu o mesmo sorriso leve que ela estampava no rosto, foi, sem correr, o mais rápido que pode ao seu encontro. A gente não percebe, ou talvez ele e ela nem percebessem a urgência que sentiam pela proximidade, pelo toque. E o encontro teve um vestígio de angustia. Primeiro as mãos se encontraram. E então os abraços e beijos rápidos tomaram espaço. Sempre buscando manter o contato, ao mesmo tempo em que os olhos de um tentavam registrar tudo o que podiam do outro.

Logo o que era urgente passa a ser saboreado. Um abraço longo, de olhos fechados. Sentindo a presença do outro. Ele passa a mão nos cabelos dela, respirando fundo, como provando lentamente o sabor do cheiro dela. Ela, com o rosto escondido em seu pescoço, passeia pelas costas dele, repousando, por fim, suas mãos nos ombros dele, em um aperto forte, de quem não quer ficar longe nunca mais.

 chuvaE separando-se, sem deixar de se tocar em momento algum, com um olhar profundamente íntimo, eles seguem de braços dados, como se fazia antigamente, mas mais leve, mais livre, mais ele e ela.

 

segunda-feira, 1 de março de 2010

Quer ver um filme?

 

pedrinho

 

Então, esse é o Pedrinho. Inicialmente, essa é só uma participação, mas quem sabe não rola um espaço "Memórias do Pedrinho", por aqui? Por enquanto, aproveitem esse texto. =)



 

 

É isso. Vou ter que assistir a melhor-comédia-do-século de novo. Não que eu esteja reclamando, mas estava eu com minha McOferta-nº-3-com-coca, alegre e contente, na última sessão de domingo, esperando o filme começar... quando ela apareceu. Nossa, e como ela chorava! Sentou na fila da frente, uma cadeira pro lado direito - como se estivesse sentada ao meu lado, mas uma fila à frente, 'tendeu? -. Então... ela chegou, sentou e chorou.

Era tudo o que eu precisava pra esquecer onde eu tava e pra quê, enquanto mil coisas passavam pela minha cabeça: "Por que?? O que aconteceu? O que eu faço!?"... Ora, o que eu poderia fazer? Só pude assistir a pobre garota chorar. Mas juro que considerei oferecer minha coca-cola. Até a batatinha. Qualquer coisa!

E então me vi fantasiando sobre a vida dela. Imaginando 437 motivos praquele choro descomedido, e 526 formas de fazer com que aquilo parasse... Até que ela foi se acalmando. Os soluços pararam, as lágrimas foram reduzindo até secarem, e alguma coisa arrancou um esboço de sorriso dela.

Fiquei perdido. Me perguntei se ela já conseguira chegar na fase de superar e rir das desgraças passadas. "Ela é rápida", eu pensei. E o sorriso foi se alargando - e eu já pensando que ela era louca -, até que uma gargalhada [essa palavra é ridícula, também acho], e eu me assustei. O que diabos poderia arrancar uma risada daquelas de uma garota que chorava copiosamente havia poucos minutos?? E aí me toquei. Cara, eu esqueci completamente que tava no cinema. E depois ela era a louca...

Acabou que eu perdi o filme. Não consegui desviar a minha atenção dela. Minha curiosidade em torno daquela garota só fazia crescer. Será que ela foi ao cinema com a simples intenção de se animar? Algo como: "muito bem, to triste. To me debulhando em lágrimas, e preciso resolver isso. Hora de ver a comédia-do-século e esquecer a vida". Não consigo imaginar que isso seja realmente possível, mas se foi isso que aconteceu, vou dizer pra vocês, funcionou.

As luzes acenderam. Eu percebi que não tinha visto o filme e que a minha comida já era, mesmo que não lembrasse de ter comido. Ela levantou, passou as mãos no rosto, depois nos cabelos, arrumando-os, ajeitou a blusa, me viu, sorriu e foi embora. Ela foi embora. Assim. Sorrindo!

Eu não sei o que aconteceu ou quem ela é. Não fiz nada pra ajudar. Nem ao menos sorri de volta quando um de seus sorrisos pareceu ser pra mim - desculpa, garota do cinema, tu me pegaste desprevenido -. Mas já sei o que dizer quando algum conhecido estiver triste: "quer ver um filme? Ainda tenho que ver a comédia-do-século".